terça-feira, 11 de janeiro de 2011

As imagens sagradas e o magistério da Igreja



“Caríssimos irmãos e irmãs, em Cristo, hoje trazemos mais um texto sobre arte e beleza a serviço da Santa Liturgia e da Santa Missa, desta vez, focando-se nas imagens sagradas (ML)”

ROMA, domingo, 12 de dezembro de 2010 (ZENIT.org) – Um distante concílio, o II Concílio de Niceia, no ano 787, definiu a correção do uso das imagens na Igreja, colocando de forma autorizada fim às tendências iconoclastas.
E no entanto em nossa contemporaneidade, dominada pelo uso obsessivo do que se vê, as igrejas frequentemente são projetadas e realizadas com uma postura que, quando se olha de perto, parece novamente iconoclasta: as paredes estão desnudas, não há imagens, quando muito, elementos estilizados, que aplicam linguagens emprestadas de experiências artísticas distantes do cristianismo, quando não inclusive contrárias a ele.
 É oportuno portanto percorrer a antiga via da legitimação das imagens. Partamos precisamente do II Concílio de Niceia, analisando suas preciosas indicações: “nós definimos com todo o rigor e cuidado que, à semelhança da representação da cruz preciosa e vivificante, assim as venerandas e sagradas imagens pintadas quer em mosaico, quer em qualquer outro material adaptado, devem ser expostas nas santas igrejas de Deus, nas alfaias sagradas, nos paramentos sagrados, nas paredes e nas mesas, nas casas e ruas”. As imagens sagradas se colocam no mesmo plano que a representação da cruz, e à semelhança da cruz devem ser expostas em todo lugar: no contexto da liturgia, nos lugares sagrados, mas também na vida cotidiana, nos lugares privados como as casas, e nos lugares públicos como as ruas. A universalidade da mensagem cristã indica a medida dos lugares nos quais expor as imagens, quer dizer, todos os lugares. As imagens sagradas devem além disso estar presentes nos ornamentos sagrados e também nos paramentos. Não se detalha a técnica, de fato, as imagens podem ser pintadas, em mosaico, ou em qualquer outra técnica oportuna, mas se necessita do sujeito: “que sejam a imagem do senhor Deus e Salvador nosso Jesus Cristo, ou da Imaculada Senhora nossa, a Santa Mãe de Deus, dos santos anjos, de todos os santos e justos”. Portanto, trata-se claramente de imagens que representam prioritariamente Jesus Cristo, cuja encarnação é o princípio fundacional da arte sacra figurativa, e também a Mãe do Senhor, os anjos, os santos e os justos, quer dizer, todo o corpo da Igreja, seu mistério e sua história.
O Concílio precisa também os motivos e as finalidades das imagens sagradas: “de fato, quando mais prudentemente estas imagens forem contempladas, tanto mais aqueles que contemplam serão levados à recordação e ao desejo dos modelos originais e a tributar-lhes, beijando-as, respeito e veneração”. A contemplação das imagens induz à recordação e ao desejo dos sujeitos representados; trata-se portanto de uma dinâmica cognoscitiva e afetiva, que parte da imagem representada, mas termina no sujeito real; é análoga, poderíamos dizer, à função que as fotografias de nossos entes queridos têm, que nos recordam as pessoas amadas. Manter viva recordação e o desejo constitui um cuidado importante da própria fé, o cultivo da própria vida espiritual.
 Trata-se de uma relação não idolátrica, porque a finalidade da adoração não é a imagem, mas o sujeito representado. De fato, o Concílio cuida em prevenir e deixar à margem os excessos que tinham estado presentes no Oriente cristão, e que tinham também induzido, em contrapartida, a reação iconoclasta. Não se trata, certamente, de uma verdadeira adoração (latria), reservada por nossa fé só à natureza divina, mas de um culto similar ao que se faz à imagem da cruz preciosa e vivificante, aos santos evangelhos e aos demais objetos sagrados, honrando-os com a oferenda do incenso e de luzes segundo o piedoso costume dos antigos. A honra feita à imagem, na realidade, pertence àquele que está representado, e quem venera a imagem venera a realidade de quem nela está reproduzido. Trata-se portanto de uma honra feita à realidade e não à representação, mas que através do culto feito à imagem se alimenta e se expressa a adoração por Deus, o único digno de ser adorado. Observemos que o correto parâmetro do culto da imagem está constituído pelo culto da cruz, preciosa e vivificante, e posto em analogia com o culto que se dá ao Evangelho, que obviamente não significa adoração do livro, mas da Palavra de Deus.
 O Concílio sublinha que o culto das imagens forma parte da tradição da Igreja: “Assim se reforça o ensinamento dos nossos santos padres, ou seja, a Tradição da Igreja universal, que de um extremo ao outro da Terra acolheu o Evangelho. Assim nos tornamos seguidores de Paulo, que falou em Cristo, do divino colégio apostólico e dos santos Padres, mantendo a tradição que recebemos. Assim podemos cantar para a Igreja os hinos triunfais à maneira do profeta: “Alegra-te, filha de Sião, exulta filha de Jerusalém; goza e regozija-te com todo o coração; o Senhor tirou de teu meio as iniquidades dos teus adversários, foste libertada das mãos dos teus inimigos. Deus é rei no teu meio, não mais verás o mal”. O culto das imagens se legitima no ensinamento apostólico, na tradição da Igreja universal. Não só, mas se afirma depois que “o que se confiou à Igreja” é “o Evangelho, a representação da cruz, imagens pintadas ou as sagradas relíquias dos mártires”; portanto, as imagens pintadas formam parte do depósito da fé, do que foi “confiado” à Igreja, fugindo portanto ao arbítrio dos homens: ninguém pode decidir que se pode menosprezar o culto das imagens.
A tradição do culto às imagens é ininterrupta na Igreja Católica que, ao contrário, encontra nesta prática um sinal de distinção das tendências iconoclastas próprias de muitas correntes protestantes. O Concílio Vaticano II se coloca em continuidade com a tradição, e na Constituição sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium, afirma: “Mantenha-se o uso de expor imagens nas igrejas à veneração dos fiéis”. Analogamente ao Concílio de Niceia, afirma que a devoção deve ser correta, e sobretudo que o sentimento que se suscite não seja a admiração pela imagem, mas a veneração dos sujeitos apresentados: “Sejam, no entanto, em número comedido e na ordem devida, para não causar estranheza aos fiéis nem contemporizar com uma devoção menos ortodoxa”.
Talvez uma das reflexões mais claras e profundas sobre o uso das imagens sagradas está na introdução ao Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (20 de março de 2005): [As imagens] “provêm do riquíssimo patrimônio da iconografia cristã. A tradição secular e conciliar diz-nos que também a imagem é pregação evangélica. Os artistas de todos os tempos apresentaram à contemplação e à admiração dos fiéis os fatos salientes do mistério da salvação, no esplendor da cor e na perfeição da beleza. Indício de que, hoje mais do que nunca, na época da imagem, a imagem sagrada pode exprimir muito mais que a palavra, pois é muito mais eficaz o seu dinamismo de comunicação e de transmissão da mensagem evangélica” (n. 5). 
A imagem, durante os séculos, conseguiu transmitir os fatos sobressalentes do mistério da salvação, e muito mais hoje, na civilização da imagem, deve saber recuperar sua própria importância fundamental, enquanto que a imagem transmite mais que as próprias palavras, em um dinamismo de comunicação e transmissão da Boa Notícia.
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* Rodolfo Papa é historiador da arte, professor de história das teorias estéticas na Universidade Urbaniana, em Roma; presidente da Accademia Urbana delle Arti. Pintor, autor de ciclos pictóricos de arte sacra em várias basílicas e catedrais. Especialista em Leonardo Da Vinci e Caravaggio, é autor de livros e colaborar de revistas.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O véu, o cálice e a dignidade do homem


Assim como os vasos sagrados na Missa, fomos feitos para receber Cristo
Por Pe. Jerry Pokorsky
De acordo com a legislação litúrgica da Igreja, o cálice usado na Missa deveria estar coberto com um véu. A Instrução Geral sobre o Missal Romano [IGMR 80c, 2ª edição típica] afirma: “O cálice esteja coberto com um véu, que sempre pode ser da cor branca”. Como a maioria das vestes litúrgicas, o véu do cálice é uma misteriosa peça. Podemos até ser tentados a rechaçá-lo como mera decoração, mas o cálice e o véu não têm apenas uma função durante a celebração da Missa, eles também nos recordam uma dignidade que está normalmente velada.
Um véu é usado para cobrir o cálice quando este é carregado para o altar e trazido dele durante a celebração da Missa. É normalmente da mesma cor dos paramentos. Como peça litúrgica, foi provavelmente introduzido na Idade Média, e deve ter tido uma origem funcional, provavelmente se desenvolveu de um sacculum ou pequena bolsa ou sacola para carregar os vasos sagrados.
O véu tem ainda uma função. Por exemplo, o véu é um sinal útil para os paroquianos acostumados a recitar a antífona de Entrada e Comunhão em Missas no meio da semana, já que elas variam de acordo com a festa. Ao sacerdote normalmente é dada a possibilidade de celebrar a memória de algum santo. Quando ele usa o véu vermelho, indica já antes da Missa começar que ele escolheu celebrar a memória.
O cálice velado também acentua tanto a relação como a distinção entre as duas partes principais da Missa, a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística. Assim como o Evangeliário, que contém a Palavra de Deus, é adornado e dignificado com belas capas, assim is vasos que conterão o Corpo e o Sangue do Senhor deveriam ser adornados e dignificados com o véu. Desde que o cálice também é o sinal visível da Eucaristia, parece apropriado que ele esteja velado durante a primeira parte da Missa, a Liturgia da Palavra.
A fonte de um significado simbólico mais profundo do véu do cálice é encontrada nas Escrituras. Como prescrito no Êxodo e descrito na carta aos Hebreus, um véu ou cortina separava o Santo dos Santos do restante do Templo:
“Consistia numa tenda: a parte anterior encerrava o candelabro e a mesa com os pães da proposição; chamava-se Santo. Atrás do segundo véu achava-se a parte chamada Santo dos Santos. Aí estava o altar de ouro para os perfumes, e a Arca da Aliança coberta de ouro por todos os lados; dentro dela, a urna de ouro contendo o maná, a vara de Aarão que floresceu e as tábuas da aliança” (Hb 9,2-4).
O véu do cálice nos lembra a cortina que separa o Santo dos Santos, e nos prontifica para nos aproximarmos do altar cientes de não sermos dignos de entrar na união com Deus.
O ato de descobrir o cálice, retirando o véu, é uma das primeiras ações litúrgicas do Ofertório, em preparação para a recepção dos dons do pão e do vinho, que podem ser levados por fiéis da assembleia. Retirar o véu em seguida à Liturgia da Palavra significa que os sagrados mistérios estão prestes a serem revelados. Novamente, esta ação é um eco simbólico da Escritura:
Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou a alma. E eis que o véu do templo se rasgou em duas partes de alto a baixo, a terra tremeu, fenderam-se as rochas. Os sepulcros se abriram e os corpos de muitos justos ressuscitaram. (Mt 27,50-51).
O véu rasgado no momento da morte de Jesus significa a transição da Antiga Aliança para a consumação da Nova Aliança, prometida por Jesus na última Ceia: “Do mesmo modo tomou também o cálice, depois de cear, dizendo: Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós...” (Lc 22,20). Retirar o véu significa a transição da Liturgia da Palavra para a Liturgia Eucarística, a “liturgia celeste”.
Apesar da barreira de nossa indignidade, o descobrimento do cálice convida-nos a adentrarmos a celebração dos sagrados mistérios. Quando o véu é removido, o esplendor do cálice é exposto.
A legislação litúrgica requer que o cálice, “a juízo das Conferências Episcopais, e com a confirmação da Sé Apostólica, podem ser fabricados com outros materiais sólidos e que sejam, segundo o modo de sentir de cada região, mais nobres (...). Neste caso, dê-se preferência aos materiais que não se quebrem nem deteriorem facilmente.” (IGMR, 290). “Quanto aos cálices e outros vasos, destinados a receber o Sangue do Senhor, a copa deve ser de material que não absorva os líquidos. O pé do cálice pode ser de outra matéria sólida e digna” (IGMR, 291).
Uma vez que um cálice é usado para a celebração da Missa, ele não deveria ser profanado pelo uso fora da Missa. O cálice é um vaso sagrado. Ele foi separado para as coisas sagradas. (É inquietante ver catálogos de lojas de objetos litúrgicos com propaganda de “taças nupciais” de cerâmica, para serem usadas na Missa do Matrimônio e depois dado de lembrança para o casal após a cerimônia. Um cálice é consagrado para o serviço do altar, porque tornou-se vaso sagrado, destinado a conter o Sangue de Jesus Cristo.
O cálice que eu uso foi feito no séc. XIX. Ele é de prata genuína e tem a copa banhada a ouro. Foi encontrado numa joalheria de peças de segunda mão. O cálice foi pego e restaurado. Recuperado como vaso sagrado e abençoado pelo meu bispo, voltou, enfim, para o serviço do altar.
Um cálice normalmente deveria ser nobre e belo, pois, por si mesmo, expressa nosso culto e estimo pela Presença Real (fogem à regra situações bem delicadas como, por exemplo, as histórias sobre sacerdotes que celebraram a Missa em campos de concentração nazistas ou em prisões comunistas).
O cálice é também um sinal de nossa dignidade para estar diante de Deus. Quando Jesus Cristo tornou-se homem, ele assumiu a natureza humana. Ele tomou a nossa humanidade e consagrou-a quando se tornou homem. O homem tornou-se um “vaso sagrado” por meio de Maria quando, em nome da humanidade, ela concebeu pelo poder do Espírito Santo. Alguém pode imaginar Jesus, como qualquer outro filho de qualquer outra mãe, tendo muitas das características físicas de Maria!
Quando contemplamos o cálice na Missa, deveríamos nos lembrar daquilo em que nos tornamos – e daquilo em que poderíamos nos tornar – por causa da Encarnação [de Cristo]. A natureza divina e a natureza humana tornaram-se inseparáveis na Pessoa de Jesus Cristo. A Encarnação em si e de si mesma revela a dignidade da humanidade. Assim, Santo Agostinho pode fazer esta surpreendente afirmação: “Deus tornou-se homem a fim de que o homem possa tornar-se Deus”.
Ele não quis que cada indivíduo fosse se tornando um “deus”. Há apenas um único Deus. Mas nossa fé nos ensina que “nós nos tornamos Deus” sendo incorporados ao Corpo Místico de Cristo pelo Batismo. Pelo Batismo nós “nos tornamos Deus” - sem perder nossa identidade distinta de servos e servas do Pai – por nossa união com Cristo em seu Corpo Místico.
A Encarnação também revela que Jesus, nascido de Maria, é o “unigênito de Deus”. Há apenas um Filho gerado pelo Pai. Mas no Batismo, nós nos tornamos “filhos no Filho” , filhos e filhas adotados por Deus. Entretanto, em certo sentido ainda nós nos tornamos “filhos no Filho” mesmo antes do Batismo, porque a humanidade foi deveras consagrada pelo fato da Encarnação: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).
Nossa dignidade – e a dignidade de todo ser humano desde o momento da concepção até a morte natural – pode ser encontrada neste simples fato. Tornando-se homem, Deus transformou todo homem, mulher e criança em um vaso sagrado que é capaz de o receber.
A Encarnação, seguida de nossa incorporação ao Corpo de Cristo pelo Batismo, separa-nos como um povo santo, como um cálice consagrado para ser usado na Missa. Já não pertencemos a um mundo profano, mas a Deus. No mundo, mas não do mundo (cf. Jo 17,16), fomos consagrados e pertencemos ao Pai, por Cristo. E assim com os vasos sagrados na Missa, somos destinados por decreto divino a receber o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Jesus Cristo.
O véu do cálice, portanto, torna-se um lembrete de que essas poderosas verdades da nossa fé estão muitas vezes escondidas.
Mas se realmente acreditamos na Encarnação; se acreditamos que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade tornou-se homem, por que não desvelaríamos notícias tão admiráveis? Se realmente acreditamos que todo ser humano encontra sua dignidade na Encarnação, por que não proclamaríamos a boa nova sobre os telhados? E se realmente acreditamos que nos tornamos vasos sagrados por meio do Batismo, ousando chamar Deus de “Pai” e destinados a recebê-lo na Santa Comunhão, por que não desejaríamos que todos partilhassem desta alegria que conduz à vida eterna? De posse de tais dons, como poderíamos não ser impelidos a proclamar cada um deles?
A Igreja, é claro, ensina que, no mistério da providência de Deus, é dada a cada ser humano a graça suficiente e necessária para a salvação. Todavia, Deus espera nossa colaboração para desvelar os mistérios de nossa fé. O papa Paulo VI faz eco às palavras de São Paulo quando escreve que a questão não é tanto se os outros serão salvos se não desvelarmos os mistérios do Evangelho, mas se nós seremos salvos se não o fizermos. “Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16).
Descobrir o cálice na Missa é um lembrete diário dos imensos dons de Deus para nós e de nossa solene obrigação de revelar o esplendor da inestimável dignidade do homem como filhos adotados por Deus em Cristo.

Fonte: http://www.adoremus.org/0297VeilChalice.html
Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Não à manipulação da Santa Missa!


Postado por frei Cleiton Robson,OFMConv.

Lendo alguns textos de Frei Ângelo Bernardo tive a feliz constatação de que não estou sozinho na busca pela preservação do sagrado, das coisas do Senhor. Em uma forma de desabafo, com a autorização expressa do dito Frei, publico parte dos seus textos, em que ele revela a sua indignação pela banalização do Culto Divino, ou como ele mesmo diz, pela “missa que não foi ‘católica’”, isto é, infinitos acréscimos, invenções, cantos, modas, contos e etc.

Frei Ângelo Bernardo revelou-se no último ano qual outro Santo Antônio, como um “martelo dos hereges”. Seu artigo mais famoso e publicado em diversos sites, é o “Não, não és franciscano”: uma refutação à entrevista que Leonardo Boff deu à revista IstoÉ em Maio de 2010. No momento, ele está preparando a segunda parte – e última – em que abordará temas como “missas-show”, Padres famosos, pedofilia, dentre outros temas polêmicos.

Exímio conhecedor dos documentos do Magistério da Igreja, como um franciscano que é, não deixa de, a exemplo de São Francisco de Assis, querer o melhor para O Senhor e nada para si. Por este motivo, tem preparado muitos artigos que visam alertar o povo de Deus quanto aos “lobos” que o assombra. É Irmão religioso, portanto, não é sacerdote e, por isso mesmo, obviamente, não celebra o Santo Sacrifício da Missa.

Segundo ele, prefere ficar no anonimato, para que seja preservada a sua “liberdade de expressão”, assim como o seu colega que anda em sua mesma linha, Frei Clemente Rojão. O texto que segue está sem as suas costumeiras citações documentais; até porque, para saber mais profundamente das coisas que ele fala, aqui mesmo no Salvem existem postagens que tratam dos termos aos quais ele se refere.

Segundo ele, prefere ficar no anonimato, para que seja preservada a sua “liberdade de expressão”, assim como o seu colega que anda em sua mesma linha, Frei Clemente Rojão. O texto que segue está sem as suas costumeiras citações documentais.

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“Estou cansado de ter que procurar uma Santa Missa, com dignidade e sem modas, como uma agulha no palheiro. Parece até uma sina: onde chego, logo na porta principal da Igreja já está o cartaz com o convite para a “Missa de Cura e Libertação”, com Padre Fulano de Tal... ou pior ainda, quando olho para o outro lado do mural, está agendada a “Missa Sertaneja”; no grupo de oração da semana que vem, “Missa Carismática”... (ah, se Padre Pio ainda vivesse para ouvir o que fizeram com os ‘grupos de oração’...). Por outro lado, quando encontro algumas pessoas que costumam assistir a Santa Missa em sua forma extraordinária ou, vulgarmente chamada de “Tridentina”, chamam-na de “Missa de Sempre”. É que não tenho a pele branca para ver quão vermelho de irritação eu fico quando ouço certos “jargões”.

“Missa de Cura e Libertação”, “Missa Sertaneja”, “Missa Carismática”, “Missa de Sempre”... a que ponto chegamos! Manipular o único e eterno memorial do Sacrifício do Calvário... quanto desgosto sinto! Acredito que seja o mesmo que muitos, quando têm que aturar padres (e alguns até ‘muito bem preparados’, academicamente), falando abobrinhas sentimentais...

Foi-se o tempo em que o início da Santa Missa era feito pelo Padre e não pelos cantores; foi-se o tempo em que o ato penitencial levava a uma contrição autêntica; foi-se o tempo em que o glória era um louvor ao Pai e ao Cordeiro e não um “hino trinitário”; foi-se o tempo em que o salmo era responsorial e não de “meditação”; foi-se o tempo em que a homilia era o momento de catequese; foi-se o tempo em que o canto do Sanctus proclamava, já antecipadamente, a vinda escatológica Do que vem em nome do Senhor; foi-se o tempo em que, após a consagração, era o momento de olhar o Senhor e adorá-lo e não cantar ou bater palmas, e que apenas ‘quem falava eram os sinos’; foi-se o tempo em que a comunhão era de joelhos e na boca; foi-se o tempo em que se guardava silêncio, mesmo que breve, após a comunhão... enfim, foi-se o tempo de tantas coisas... e estas “tantas coisas” geraram Santos, verdadeiros homens de fé e uma fé madura, não infantilizada, à estatura de NSJC.

É certo que a Palavra de Deus é viva e eficaz e que nos toca ao coração. Mas não se trata de banalizar ou denigrir o seu valor. Ela é cortante e penetra o íntimo das nossas almas. A grande questão é o desvio de foco. Se hoje temos concepções de “Missas” como essas, é devido ao subjetivismo de tantos padres, ou seja, eles desviam o foco de NSJC e levam-no para si. Também é certo que o sacerdote age in persona Christi, mas ele deve se re-cordar (= trazer ao coração) sempre o exemplo do Senhor Jesus Cristo que, “embora sendo de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens... Por isso, Deus o exaltou soberanamente...” (Fl 2,6-7.9).

Mas, o que realmente me deixa consternado é a manipulação da Santa Missa para os gostos pessoais e intimistas de cada padre... E nem adianta dizer que é o povo quem quer assim. Errado! Todo sacerdote (ou presbítero, como queiram chamar), recebeu uma formação específica da Santa Igreja Católica Apostólica e Romana. Ora, se assim o é, então, deve obedecer, como prometeram no dia da sua ordenação a tudo o que está escrito e não transgredir ou inventar ou, pior ainda, modificar, sem poder algum para tal coisa. O povo recebe o que o padre dá.

Penso que o dever primeiro de cada sacerdote é a salvação e cura das almas, a começar da sua própria. E rezo para que cada qual tenha consciência do que faz e que temam o juízo. De fato, constato que muitos já não têm mesmo medo da condenação eterna e se afugentam na historinha: ah, o céu ou inferno é aqui e agora... Que Deus lhos perdoe por tanta insanidade e falta de fé. Esta sim é a grande “crise” pela qual muitos deveriam passar. Mas apenas o fazem no sentido mais fraco do termo, que seja, modificação e não no sentido real da palavra, de ‘purificação’. Sim, é necessária uma grande purificação dos pensamentos, palavras, atos e até de omissões!

Acredito que muitos dos que lêem o que escrevo fazem apenas com o intuito de criticar ao final das leituras; mas se pararem para “pensar”, isto é, avaliar onde está o ‘peso’ real das coisas, hão de concordar que os erros não estão em quem lhos constatam; antes, estão nos que são os sujeitos das situações, no caso, dos Padres em relação às concepções da Santa Missa.

Concluindo esta breve conversa, dirijo-me aos “Ministros do Divino Altar”. Se tiverem consciência de que cada um é realmente “um outro Cristo nesta terra”, começarão a executar os seus ofícios com um gostinho de céu, como uma antecipação já aqui e agora do Reino que pregamos e anunciamos. Espero que ao ensinarem as ovelhas confiadas a cada um, quando falarem em “Missa de Cura e Libertação”, “Missa Sertaneja”, “Missa Carismática”, “Missa de Sempre”, façam com a consciência de que em cada denominação errônea dessas, ainda assim, não desviem o foco: NSJC!"

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

FELIZ 2011!!!



"Quando chegou a plenitude dos tempos, fixada pelos insondáveis designios divinos, Deus assumiu a natureza do homem para reconciliá-lo com seu criador".
                                                                                                                                                                                                                       São Leão Magno, papa

Que as graças do mistério do Verbo Encarnado nos sejam luz viva no caminho do ser cristão, no cotidiano.

Um Ano Novo copiosamente por Deus abençoado, são os votos sinceros de Carlos Ferraz e Família.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A vestição dos paramentos litúrgicos e as respectivas orações


Mais um interessantíssimo artigo de Dom Mauro Gagliardi vindo da Agência Zenit, sobre Espiritualidade Litúrgica. Dessa vez o tema são as orações que o sacerdote faz (ou faria ou fazia, segundo costume local) antes e durante a paramentação. Que possam os sacerdotes recuperar esse digno costume!

O artigo que apresentamos hoje pretende recordar o antigo costume de acompanhar a vestidura dos paramentos litúrgicos com orações próprias, breves, mas muito ricas em termos bíblicos, teológicos e espirituais. Tal prática tradicional deve ser mantida e não abandonada.

1. Breve revisão histórica
As roupas utilizadas pelos ministros sagrados nas celebrações litúrgicas são derivadas das vestimentas gregas e romanas. Nos primeiros séculos, a forma de vestir das pessoas de uma determinada classe social (os honestiores) foi também adotada para o culto cristão, e esta prática foi mantida na Igreja, mesmo após a paz de Constantino. Como contado por alguns escritores eclesiásticos, os ministros sagrados usavam suas melhores roupas, provavelmente reservadas para a ocasião [1].
Enquanto que na antiguidade cristã as vestimentas litúrgicas diferiam das de uso cotidiano não pela forma particular, mas apenas pela qualidade dos tecidos e decoração particular, no curso das invasões bárbaras, os costumes, e com eles também a forma de vestir dos novos povos, foram introduzidos no Ocidente, levando a mudanças na moda profana. A Igreja, ao contrário, manteve essencialmente inalteradas as roupas usadas pelos sacerdotes nos cultos públicos; foi assim que as vestimentas de uso cotidiano acabaram por se diferenciar das de uso litúrgico. Na época carolíngia, finalmente, os paramentos próprios de cada grau do sacramento da ordem foram definitivamente definidos, assumindo a aparência que conhecemos hoje.

2. Função e significado espiritual
Além das circunstâncias históricas, os paramentos sacros têm uma função importante nas celebrações litúrgicas: primeiramente, o fato deles não serem usados no cotidiano, tendo assim um caráter cultual, ajuda-nos a romper com o cotidiano e suas preocupações, no momento da celebração do culto divino. Além disso, as formas largas das vestimentas, como por exemplo da casula, põem em segundo plano a individualidade de quem as veste, enfatizando seu papel litúrgico. Pode-se dizer que a “ocultação” do corpo do ministro sob as vestes, em certo sentido, despersonaliza-o, removendo o ministro celebrante do centro, para revelar o verdadeiro Protagonista da ação litúrgica: Cristo. A forma das vestes, portanto, lembra-nos que a liturgia é celebrada in persona Christi, e não em próprio nome.
Aquele que exerce uma função de culto não atua como indivíduo por si mesmo, mas como ministro da Igreja e como instrumento nas mãos de Jesus Cristo. O caráter sagrado dos paramentos provém também do fato de que são vestidos conforme prescreve o Ritual Romano.
Na forma extraordinária do Rito Romano (de São Pio V), a vestidura dos paramentos litúrgicos é acompanhada por orações relativas a cada veste, orações cujo texto ainda pode ser encontrado em muitas sacristias. Ainda que estas orações não sejam mais prescritas (mas nem tampouco proibidas) da forma ordinária do Missal emitido por Paulo VI, seu uso é aconselhável, uma vez que ajudam nas preparações e no recolhimento do sacerdote antes da celebração do Sacrifício Eucarístico.
Para confirmar a utilidade destas orações, note-se que elas foram incluídas no Compendium Eucharisticum, recentemente publicado pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos [2]. Além disso, pode ser útil lembrar que Pio XII, por decreto de 14 de janeiro de 1940, concedeu uma indulgência de cem dias para cada oração.

3. As vestimentas litúrgicas individuais e as orações que acompanham sua vestidura
1) No início da preparação, o sacerdote lava as mãos, recitando uma oração especial; além da questão de higiene, este ato tem também um significado simbólico profundo, representando a passagem do profano ao sagrado, do mundo do pecado para o puro Santuário do Altíssimo. Lavar as mãos equivale, de certa forma, a retirar as sandálias diante da sarça ardente (Êxodo 3:5). A oração se refere a esta dimensão espiritual:

Da, Domine, virtutem manibus meis ad abstergendam omnem maculam; ut sine pollutione mentis et corporis valeam tibi servire.

(Dai às minhas mãos, Senhor, o poder de apagar toda mácula: para que eu vos possa servir sem mácula do corpo e da alma) - (Da’, o Signore, alle mie mani la virtù che ne cancelli ogni macchia: perché io ti possa servire senza macchia dell’anima e del corpo) [3].

À lavagem das mãos se segue a vestidura propriamente dita.

2) Inicia-se com o amito, um pano retangular de linho dotado de duas fitas, que repousa sobre os ombros junto ao pescoço. O amito destina-se a cobrir, ao redor do pescoço, a vestimenta utilizada diariamente, ainda que se trate do hábito do sacerdote. Nesse sentido, é preciso lembrar que o amito também é usado quando se está vestido com roupas de estilo moderno, que muitas vezes não apresentam uma grande abertura em torno do pescoço. De qualquer forma, portanto, as roupas comuns permanecem visíveis e por isso é preciso cobri-las também, nestes casos, com o amito [4].
No Rito Romano, o amito é vestido antes da alva (túnica). Ao vesti-lo, o sacerdote recita a seguinte oração:

Impone, Domine, capiti meo galeam salutis, ad expugnandos diabolicos incursus.
(Colocai, Senhor, na minha cabeça o elmo da salvação para que possa repelir os golpes de Satanás) - (Imponi, Signore, sul mio capo l’elmo della salvezza, per sconfiggere gli assalti diabolici).

Com referência à carta de São Paulo aos Efésios 6.17, o amito é interpretado como "o elmo da salvação”, que deve proteger o portador das tentações do demônio, em especial de pensamentos e desejos malévolos durante a celebração litúrgica. Este simbolismo é ainda mais evidente no costume seguido desde a Idade Média pelos monges beneditinos, franciscanos e dominicanos, entre os quais o amito era posicionado sobre a cabeça e deixado recair sobre a casula ou a dalmática.

3) A alva consiste na veste longa e branca utilizada por todos os ministros sagrados, e que representa a nova veste imaculada que todo cristão recebe mediante o batismo. A alva é portanto um símbolo da graça santificante recebida no primeiro sacramento, e é considerada também um símbolo da pureza de coração necessária para o ingresso na graça eterna da contemplação de Deus no céu (cf. Mateus 5:8). Isso é expresso na oração recitada pelo sacerdote enquanto veste a peça, oração que se refere ao Apocalipse 7,14:

Dealba me, Domine, et munda cor meum; ut, in sanguine Agni dealbatus, gaudiis perfruar sempiternis.
(Revesti-me, Senhor, com a túnica de pureza, e limpai o meu coração, para que, banhado no Sangue do Cordeiro, mereça gozar das alegrias eternas) - (Purificami, Signore, e monda il mio cuore, perché purificato nel Sangue dell’Agnello, io goda degli eterni gaudi).

4) Sobre as vestes, na altura da cintura, é colocado o cíngulo, um cordão de lã ou outro material apropriado, que é usado como cinto.
Todos os oficiantes que portam a alva devem também portar o cíngulo (esta prática tradicional é hoje frequentemente ignorada) [5].
Para diáconos, sacerdotes e bispos, o cíngulo pode ser de cores diferentes, de acordo com o tempo litúrgico ou a memória do dia. No simbolismo das vestes litúrgicas, o cíngulo representa a virtude do auto-controle, que São Paulo enumera entre os frutos do Espírito (cf. Gálatas 5:22). A oração correspondente, como na Primeira Carta de Pedro 1,13, diz:

Praecinge me, Domine, cingulo puritatis, et exstingue in lumbis meis humorem libidinis; ut maneat in me virtus continentiae et castitatis.
(Cingi-me, Senhor, com o cíngulo da pureza, e extingui nos meus rins o fogo da paixão, para que resida em mim a virtude da continência e da castidade) - (Cingimi, Signore, con il cingolo della purezza e prosciuga nel mio corpo la linfa della dissolutezza, affinché rimanga in me la virtù della continenza e della castità).

5) O manípulo é um paramento litúrgico usado nas celebrações da Santa Missa segundo a forma extraordinária do Rito Romano; caiu em desuso nos anos da reforma litúrgica, embora não tenha sido abolido. É semelhante à estola, mas de menor comprimento, inferior a um metro, e é fixado por meio de presilhas ou fitas como as da casula. Durante a Santa Missa em sua forma extraordinária, o celebrante, o diácono e subdiácono o portam sobre o antebraço esquerdo. É possível que este paramento derive de um lenço (mappula) utilizado pelos romanos amarrado ao braço esquerdo. Uma vez que era utilizado para enxugar as lágrimas e o suor da face, escritores eclesiásticos medievais atribuíram ao manípulo um simbolismo associado às fadigas do sacerdócio. Esta leitura também está presente na oração de sua vestidura:

Merear, Domine, portare manipulum fletus et doloris; ut cum exsultatione recipiam mercedem laboris.
(Fazei, Senhor, que mereça trazer o manípulo do pranto e da dor, para que receba com alegria a recompensa do meu trabalho) - (O Signore, che io meriti di portare il manipolo del pianto e del dolore, affinché riceva con gioia il compenso del mio lavoro).

Como se vê, no início da oração mencionam-se as lágrimas e a dor que acompanham o ministério sacerdotal, mas a segunda parte do texto refere-se aos frutos do próprio trabalho. Não será fora de propósito recordar a passagem de um salmo que pode ter inspirado esta segunda simbologia referente ao manípulo, visto que a Vulgata assim apresentava o Salmo 125,5-6: " Qui seminant in lacrimis inexultatione metent; euntes ibant et flebant portantes semina sua, venientes autem venient inexultatione portantes manipulos suos" (grifo nosso).

6) A estola é o elemento distintivo de um ministro ordenado e é sempre usada na celebração dos sacramentos e sacramentais. É uma faixa de tecido, em geral bordado, cuja cor varia de acordo com o tempo litúrgico ou o dia santo. Ao vesti-la, o sacerdote recita a seguinte oração:
Redde mihi, Domine, stolam immortalitatis, quam perdidi in praevaricatione primi parentis; et, quamvis indignus accedo ad tuum sacrum mysterium, merear tamen gaudium sempiternum.
(Restitui-me, Senhor, a estola da imortalidade, que perdi na prevaricação do primeiro pai, e, ainda que não seja digno de me abeirar dos Vossos sagrados mistérios, fazei que mereça alcançar as alegrias eternas) - (Restituiscimi, o Signore, la stola dell’immortalità, che persi a causa del peccato del primo padre; e per quanto accedo indegno al tuo sacro mistero, che io raggiunga ugualmente la gioia senza fine).

Dado que a estola é um paramento de suma importância, indicando mais do que qualquer outro a condição de ministro ordenado, não se pode deixar de lamentar o abuso, já largamente difundido, por parte de alguns sacerdotes, que não a usam em conjunto com a casula [6].

7) Finalmente, veste-se a casula ou planeta, a vestimenta característica daqueles que celebram a Santa Missa. Os livros litúrgicos usavam as duas palavras, em latim casula e planeta, como sinônimos. Enquanto o nome planeta foi usado em particular em Roma e acabou por permanecer na Itália, o nome casula deriva da forma típica da vestimenta, que originalmente circundava todo o corpo do ministro sagrado que a portava. O uso da palavra “casula” também é encontrado em outros idiomas: "Casulla”, em espanhol, “Chasuble” em francês e em Inglês, "Kasel" em alemão. Oração para vestidura da casula remete ao convite de Colossenses 3:14: “Sobretudo, revesti-vos do amor, que une a todos na perfeição”. E, de fato, a oração com a qual se veste a casula cita as palavras do Senhor contidas em Mateus 11,30:
Domine, qui dixisti: Iugum meum suave est, et onus meum leve: fac, ut istud portare sic valeam, quod consequar tuam gratiam. Amen.
(Senhor, que dissestes: O meu jugo é suave e o meu peso é leve, fazei que o suporte de maneira a alcançar a Vossa graça. Amém) - (O Signore, che hai detto: Il mio gioco è soave e il mio carico è leggero: fa’ che io possa portare questo [indumento sacerdotale] in modo da conseguire la tua grazia. Amen).

Em conclusão, espera-se que a redescoberta do simbolismo associado aos paramentos e suas orações incentive os sacerdotes a retomar a prática da oração durante a vestição, de modo a se preparar com o devido recolhimento à celebração litúrgica. Se é verdade que é possível rezar com diferentes orações, ou ainda simplesmente elevando a mente a Deus, por outro lado, os textos da oração de vestição trazem a brevidade, a precisão de linguagem, a inspiração da espiritualidade bíblica e o fato de que são rezados pelos séculos por um número incontável de ministros sagrados. Estas orações são recomendadas ainda hoje, para a preparação da celebração litúrgica, e também realizadas de acordo com a forma ordinária do Rito Romano.

Notas [originais em italiano]
[1] Cf. ad esempio san Girolamo, Adversus Pelagianos, I, 30.
[2] Edito dalla LEV, Città del Vaticano 2009, pp. 385-386.
[3] Riprendiamo il testo delle preghiere dall’edizione del Missale Romanum emanato nel 1962 dal beato Giovanni XXIII, Roman Catholics Books, Harrison (NY) 1996, p. lx. La traduzione in italiano delle preghiere è nostra.
[4] La Institutio Generalis Missalis Romani (2008) al n. 336 permette di non assumere l’amitto quando il camice è confezionato in maniera tale da coprire completamente il collo, nascondendo la vista dell’abito comune. Di fatto, però, avviene di rado che l’abito non sia visibile, anche solo parzialmente; di qui la raccomandazione ad utilizzare comunque l’amitto.
[5] Lo stesso n. 336 della Institutio del 2008 prevede la possibilità di omettere il cingolo, se il camice è confezionato in maniera tale da aderire al corpo senza di esso. Nonostante questa concessione, bisogna riconoscere: a) il valore tradizionale e simbolico dell’uso del cingolo; b) il fatto che difficilmente il camice – sia in foggia più tradizionale, che soprattutto nei tagli più moderni – aderisce da sé al corpo. Se la norma prevede la possibilità, essa dovrebbe però restare piuttosto ipotetica in via di fatto: in concreto, il cingolo risulta sempre necessario. A volte si trovano oggi dei camici che hanno il cingolo incorporato: una fettuccia di stoffa unita al camice per mezzo di una cucitura all’altezza della vita e che si annoda al momento della vestizione: in questi casi la preghiera sul cingolo può essere recitata mentre si annoda. Resta però di gran lunga preferibile la forma tradizionale.
[6] «Il Sacerdote che porta la casula secondo le rubriche non tralasci di indossare la stola. Tutti gli Ordinari provvedano che ogni uso contrario sia eliminato»: Congregazione per il Culto Divino e la Disciplina dei Sacramenti, Redemptionis Sacramentum, 25 marzo 2004, n. 123.







sábado, 25 de dezembro de 2010

Como devem comungar os Ministros Extraordinários da Comunhão Eucarística



Escrito por João Batista   

No momento do início da Comunhão Eucarística, é comum ver que os Meces (Ministros Extraordinários da Comunhão Eucarística) sobem ao Presbitério e são os primeiros a receberem a Sagrada Comunhão para que possam imediatamente exercer seu ministério de leigo na Comunhão Sacramental dos fiéis, auxiliando assim o Sacerdote, sempre que o número de fiéis se torna maior. O que chama muito a atenção e que é visto de forma bastante generalizada é a forma com que comungam. Veja se na sua paróquia acontece da forma como vamos expor, caso aconteça assim, é necessário orientar de forma urgente todos os que assim comungam e encontrar formas possíveis de se cumprir o que a Igreja nos pede e ensina sobre o mais excelso momento da vida eclesial.

Hoje em dia é muito comum que os Meces subam ao Presbitério e se aproximam da Sagrada Comunhão, recebendo-A na Mão e fazendo a efusão por si mesmos no Cálice Sagrado e depois A levam na boca. Esta forma não é uma forma correta de se receber o Santo Sacramento do Altar. Não bastando não ser a forma correta, a Igreja nos ensina que isto é um erro grave e que deve ser urgentemente corrigido. Vejo o que nos ensina a Igreja, através da Instrução Redemptionis Sacramentum, da Sagrada Congregação para o Culto Divino, em seu número 94:

“Não está permitido que os fiéis tomem a hóstia consagrada nem o cálice sagrado «por si mesmos, nem muito menos que se passem entre si de mão em mão».”

Mas, então, qual a forma podemos seguir que não contrarie os ensinamentos católicos sobre a administração da Sagrada Comunhão?

Uma forma de se fazer a Comunhão dos Meces, até mesmo para que sirvam de Catequese para toda a Assembleia é dar apenas a Comunhão sob a forma de pão, como normalmente é administrada para toda a Assembléia, na boca ou na mão conforme a intenção do próprio comungante.

Outra forma é utilizar-se do auxílio pelos Acólitos ou coroinhas. O Sacerdote, enquanto segura o Cálice do Sangue do Senhor, um Acólito o auxilia segurando o vaso coms as Hóstias Sagradas e um terceiro Acólito ou Coroinha, seguraria a bandeija para evitar que matéria eucarística caia no chão. E o Sacerdote pegaria o Corpo e por intinção no Cálice, administraria o Corpo e o Sangue do Senhor ao Meces. Lembrando que desta forma só se admite a comunhão na boca e nunca na mão dos comungantes.

Não queremos aqui acusar ninguém, nem Meces nem padres que fazem desta forma, mas o nosso desejo é que todos aprendam conforme a Santa Igreja nos ensina e saibamos a partir disso ter um renovado ardor e zelo eucarístico. Tudo isso eleva o nosso próprio entendimento sobre a exata dimensão deste mais excelso Sacramento Divino.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Vida Eucarística


Caros irmãos e irmãs, amar a Santa Liturgia é amar, em primeiro lugar, o Santíssimo Sacramento do Altar, por isso, trazemos hoje um excelente artigo sobre a Vida Eucarística.


Vida Eucarística: Cristo vive



Por José Manuel Iglesias


“Os milagres da multiplicação dos pães – quando o Senhor pronunciou a bênção, partiu e distribuiu os pães por meio dos seus discípulos para alimentar a multidão – prefiguram a superabundância deste pão único da sua Eucaristia” .
(Catecismo da Igreja Católica, n. 1335)

“Tens de conseguir que a tua vida seja essencialmente – totalmente! – eucarística”.
(São Josemaria Escrivá, Forja, n. 826)

Na sinagoga de Cafarnaum, Jesus conversa com a gente que veio ao seu encontro: Em verdade, em verdade vos digo: vós me buscais, não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes saciados (Jo 6, 26).
Se nos sentirmos protagonistas do peregrinar de Jesus pelos arredores do lago de Tiberíades, perceberemos que o milagre com que Ele alimentou mais de cinco mil pessoas com cinco pães de cevada e dois peixes é uma amostra do seu poder e do seu amor: em Jesus palpita o anelo de alimentar, ao longo da história, as multidões de fiéis que o procuram famintas do Pão da vida. O impacto da multiplicação dos pães e dos peixes foi forte. Reza assim ao Senhor o autor de Forja: “Senhor, se aqueles homens, por um pedaço de pão – embora o milagre da multiplicação tenha sido muito grande –, se entusiasmam e te aclamam, que não deveremos nós fazer pelos muitos dons que nos concedeste, e especialmente porque te entregas a nós sem reservas na Eucaristia?” (1)
Essa entrega imensamente amorosa do Senhor exige muita fé e muita graça de Deus: Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer... (Jo 6, 44); e aquelas pessoas não entenderam o milagre do Mestre, que as tinha alimentado para que cressem nAquele que me enviou.
Mas que milagre fazes tu para que o vejamos e acreditemos em ti? (Jo 6, 29-30). Esqueceram bem depressa o entusiasmo que se apossara delas. Não se abriram com humildade ao Senhor... Fecharam-se nos seus preconceitos.

“DÁ-NOS SEMPRE DESSE PÃO!”

Mas quanto mais nós, os homens, nos encerramos nos nossos preconceitos e no esquecimento das coisas de Deus, mais Jesus nos mostra quem Ele é e o seu desejo de se dar em comida aos homens.
Os discípulos esquecem logo que também na véspera o tinham visto caminhar sobre o mar embravecido... E esquecem que o tinham ouvido gritar: Sou eu, não temais! Vence as leis físicas, domina por direito próprio os elementos. Pode andar por todos os mares tempestuosos da terra como “Aquele que é” (cfr. Êx 3, 13-15), como o dono, o amo, o Senhor. Pode vencer todas as incredulidades humanas. Pode salvar-nos a todos: SOU EU, Deus convosco! Por que temer?
Agora, na sinagoga, diz-lhes: Procurai não o alimento que perece, mas o alimento que permanece até à vida eterna (Jo 6, 27). E sem o pretenderem, são eles próprios quem provoca que Jesus prometa já abertamente a Eucaristia. Ufanos da sua tradição, introduzem no diálogo o tema do pão do céu, o maná – alimento que os seus antepassados recolhiam diariamente no deserto –, símbolo dos bens messiânicos; alusão que Jesus aproveita para apresentar-se como o Pão da vida. O maná era apenas uma figura: Moisés não vos deu o pão do céu; é meu Pai quem vos dá o verdadeiro pão do céu: porque o pão de Deus é o pão que desce do céu e dá a vida ao mundo (Jo 6, 32-33).
E também são eles que lhe pedem: Senhor, dá-nos sempre desse pão (Jo 6, 34).
Respondeu-lhes Jesus: Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que vem a mim jamais terá sede. E nessa promessa eucarística surge o imutável EU SOU divino: EU SOU o pão que desci do céu (Jo 6, 35.41).
E volta a cegueira dos ouvintes: Murmuravam então dele os judeus, porque dissera: “Eu sou o pão que desci do céu” (Jo 6, 41). A essa cegueira responde Jesus com palavras reiterativas, terminantes e claras: Eu sou o pão..., a minha carne é vida do mundo... EU SOU, uma vez mais afirmado de um modo preciso e inquestionável.

“É A MINHA CARNE”

Quantas vezes nos mostram os Evangelhos esse EU SOU de Jesus! É desse modo que se designa o Nome de Deus no livro do Êxodo, quando Moisés pergunta ao Senhor como se chama: Eu sou aquele que é... Assim responderás aos filhos de Israel: EU SOU manda-me a vós (Êx 3, 14). É especialmente significativo que Cristo use essa expressão com tanta freqüência: Eu sou a luz do mundo (Jo 8, 12). Se não crerdes que eu sou, morrereis nos vossos pecados (Jo 8, 24). Quando levantardes ao alto o Filho do homem, então sabereis que eu sou (Jo 8, 28). Antes que Abraão nascesse, eu sou (Jo 8, 58). Desde agora vo-lo digo, antes que suceda, para que, quando suceder, creiais que eu sou (Jo 13, 19). E quando Caifás lhe perguntou: “És tu o Messias, o Filho de Deus bendito?”, Jesus disse: “Eu o sou, e vereis o Filho do homem sentado à direita do poder de Deus, vindo sobre as nuvens do céu” (Mc 14, 62). Então perguntaram todos: “Logo, tu és o Filho de Deus?” Respondeu-lhes: “Sim, eu sou” (Lc 22, 70). Textos que manifestam claramente que Jesus se identifica com Deus.
Aqui, no âmbito da promessa da Eucaristia, Jesus, EU SOU, Deus humanado, desvenda os desígnios do seu amor: quer permanecer entre os homens como alimento e vida das almas, sob a forma de pão: é a minha carne. Nessa ocasião, chega a repetir oito vezes a palavra comer, mostrando que se trata de uma realidade. Eis o que diz o teólogo Jean Galot:
“Se Cristo pôde dizer com toda a verdade Isto é a minha carne, é porque tinha um poder soberano sobre todas as coisas criadas, um poder capaz de transformar um ser em outro, de substituir uma realidade antiga por outra nova. Não somente era dono da sua existência, mas do próprio ser . Porém, o nome “Eu sou” não exprime apenas a plenitude do ser e a sua continuidade, o poder e a eternidade. Significa também uma presença . Presença é mais do que existência . Estar presente é existir para alguém, estar perto dele, diante dele. A presença está impregnada do calor de um amor. Também Yahveh, quando diz a Moisés Eu sou, comunica-lhe uma intenção amorosa: Eu serei, Eu estou contigo...
“Quando Cristo atribui a si próprio esse nome divino, fá-lo para mostrar a sua identidade de Filho de Deus, para afirmar a plenitude do ser que possui, a sua onipotência e a sua eternidade. Identifica-se com Deus de tal maneira que se deve crer nEle do mesmo modo que se crê em Deus... Com o Salvador, a eternidade do Eu sou entra plenamente na História humana, no tempo humano. Entra como uma presença oferecida aos discípulos, presença que os assiste em todos os momentos e de uma maneira indefectível”. (2)

 “NÃO HÁ NADA DE MAIS VERDADEIRO”

Quando, na véspera da sua morte, Jesus disser diante dos seus: Isto é o meu corpo... Este é o meu sangue (cfr. Mt 26, 26; Mc 14, 22; Lc 22, 19; 1 Cor 11, 25), usará as palavras no mesmo sentido em que disse: Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanecerá em mim e eu nele (Jo 6, 56). Para um semita, a palavra “carne” designa o corpo vivo, quer dizer, a pessoa toda que se torna presente nesse corpo vivo. Quando Jesus diz: Esta é a minha carne, indica a presença de todo o seu “Eu”: corpo vivo, alma e divindade. “O que o Verbo assumiu, nunca mais o deixou”: é um princípio teológico que nos diz que a alma e a divindade de Cristo estão indissoluvelmente unidos ao seu Corpo.
As palavras reiterativas de Jesus: comer o meu corpo..., beber o meu sangue... foram entendidas pelos judeus de um modo tão realista que se fez um silêncio terrível quando as pronunciou na sinagoga de Cafarnaum: pensaram que se tratava de uma espécie de antropofagia. Desconcertados, cravam o olhar em Jesus e depois dão rédea solta à ironia: Os judeus começaram a discutir, dizendo: Como pode este homem dar-nos a comer a sua carne? (Jo 6, 52).
Por fim, estala o tumulto e ouvem-se vozes incrédulas: Duras são estas palavras! Quem as pode ouvir? (Jo 6, 60). E acabam por ir-se embora: Desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com ele (Jo 6, 66).
A passagem da promessa da Eucaristia finaliza com uma afirmação de Pedro: Senhor, tu tens palavras de vida eterna! (Jo 6, 68). Das palavras que se dizem a mandado do Senhor na Consagração: Isto é o meu corpo..., Este é o meu sangue, dirá São Tomás de Aquino: “Nihil hoc verbo veritatis verius” – “nada há de mais verdadeiro que estas palavras de verdade”.
“Este é o Eu sou que se nos entrega na Missa. Se pensarmos que Jesus fez a sua afirmação mais solene precisamente na véspera da sua Paixão, compreenderemos melhor que essa afirmação esteja na base do sacrifício eucarístico. Quando a oferenda do Calvário se torna novamente atual, apóia-se na atualidade do Eu sou.
“Na fórmula da Consagração – Isto é o meu corpo –, aflora a soberania do Eu sou. Existe um mistério do ser na Consagração, mistério da transformação de um ser em outro, mistério da existência de Cristo sob as aparências do pão .
“A Missa é por excelência o momento e o lugar da presença divina neste mundo. Vem eternizar a nossa vida humana submetida ao desgaste do tempo. A Missa é a nova irrupção no humano do ser divino, que cada dia torna o universo e a humanidade mais parecidos com Ele.
“Pela Missa, a presença divina invade mais e mais o meio humano e até o mundo material. Encaminha o universo para o termo da sua evolução, a fim de que nesse estágio final Deus possa ser tudo em todos (1 Cor 15, 28)”. (3)

“ELE ESTÁ AÍ E TE CHAMA!”

Cristo presente na Eucaristia não é diferente daquele que aparece no Evangelho, irradiando o bem, fazendo-se querer, demonstrando-nos quanto nos ama, ganhando a intimidade de cada coração. Os encontros pessoais narrados pelo Evangelho prosseguem com cada vinda do Senhor aos nossos altares. Quando diz a Marta: Uma só coisa é necessária (Lc 10, 42), diz-nos o mesmo do fundo do Sacrário: “Só Deus basta”. Quando Pedro lhe observa no Tabor: Como é bom estarmos aqui! (cfr. Mt 17, 4; Mc 9, 5; Lc 9, 33), exprime um sentimento que bem pode ser o nosso diante da sua presença na Eucaristia, não menos real que na Transfiguração. E no convívio com os nossos colegas e amigos, temos de saber dizer-lhes, de maneira apropriada a cada caso: O Senhor está aí e te chama (Jo 11, 28). E quando notarmos que as multidões têm fome de paz, de justiça, de felicidade, é porque nos dizem, como os gregos que se aproximaram de Filipe: Queremos ver Jesus (Jo 12, 21), e temos de levá-los até onde Ele está: até o sacramento da Eucaristia.
O “rosto humano de Deus” que aparece em todas as páginas do Evangelho é o mesmo que, com “cara de pão”, derrama bondade na Missa e a irradia de cada Sacrário. Se durante a sua existência passou fazendo o bem (At 10, 38), também agora, como há dois mil anos, nos mostra o seu coração acolhedor, discreto, delicado. E, mais em silêncio e escondido, anima-nos a procurá-lo com a humilde confiança daquele leproso que lhe pedia: Senhor, se quiseres, podes limpar-me (Mt 8, 2). Ou a repetir-lhe com os meninos hebreus: Bendito o que vem em nome do Senhor! (Mt 21, 9). Ou a dizer-lhe com a fé do cego Bartimeu: Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim! (Mc 10, 47), e Senhor, faz com que eu veja! (Mc 10, 51).
Ou, se nos sentimos secos e de alma muda, e sem saber que dizer-lhe, nem que agradecer-lhe, pedimos-lhe como o outro discípulo: Senhor, ensina-nos a orar (Lc, 8, 44). Ou imploramos como os Apóstolos: Aumenta-nos a fé! (Lc 17, 45). Ou manifestamos singelamente, com a confiança robustecida daquele pai que suplica a cura do seu filho: Creio, Senhor, mas vem em ajuda da minha incredulidade (Mc 9, 24). Ou rogamos em uníssono com Marta e Maria: Senhor, aquele que amas está doente (Jo 11, 3). Ou confessamos com o coração contrito e compungido, como Pedro às margens do lago de Tiberíades, recordando-se da sua tríplice negação: Senhor, tu sabes tudo. Tu sabes que eu te amo! (Jo 21, 17).
Como agradará ao Senhor, sempre que estejamos diante do Santíssimo Sacramento ou depois de comungarmos na Missa, que – com a humildade, confiança, fé, contrição e simplicidade de novos leprosos, cegos ou doentes que somos – lhe falemos como fizeram os personagens do Evangelho! Ele é o mesmo daquele tempo... e nós tão miseráveis ou mais que eles! “A presença de Jesus vivo na Hóstia santa é a garantia, a raiz e a consumação da sua presença no mundo”. (4)

DOUTRINA DA IGREJA SOBRE A EUCARISTIA

Cristo vive e está, pois, de modo eminente na Eucaristia. Recordemos muito brevemente a doutrina da Igreja sobre este ponto.
A Eucaristia é o sacramento do Corpo e Sangue de Jesus Cristo sob as espécies do pão de trigo e do vinho de videira. A admirável conversão do pão no Corpo e do vinho no Sangue – chamada transubstanciação – realiza-se na Consagração da Santa Missa. A partir desse momento, embora permaneçam as aparências – “espécies” ou “acidentes” – do pão e do vinho, neles se contêm verdadeira, real e substancialmente o Corpo e o Sangue, a Alma e a Divindade do próprio Jesus Cristo Nosso Senhor, para nosso alimento espiritual.
A promessa da Eucaristia, como vimos, fê-la o Senhor na sinagoga de Cafarnaum. A instituição da Eucaristia foi feita por Jesus na Última Ceia: Tomai e comei, este é o meu corpo... Este é o meu sangue... O Senhor “instituiu o sacrifício eucarístico do seu Corpo e do seu Sangue para perpetuar assim o Sacrifício da Cruz ao longo dos séculos, até que volte, confiando deste modo à sua amada Esposa, a Igreja, o memorial da sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal, em que se come Cristo, em que a alma se cumula de graça e nos é dado um penhor da glória futura”. (5) São três, portanto, os eixos deste mistério, como pôs de relevo o Papa João Paulo II: Eucaristia-Sacrifício, Eucaristia-banquete e Eucaristia-presença (6).
Na Santa Missa, Jesus Cristo oferece-se por nós em sacrifício.
Recebe-se Jesus Cristo na Sagrada Comunhão.
Ele faz-se presente – real e verdadeiramente – a partir da Consagração. E essa admirável presença continua na Sagrada Eucaristia reservada no Sacrário: para ser dada em comunhão a quem peça, para ser levada aos doentes, para ser visitada e ser objeto de culto de suprema adoração por parte dos fiéis; para suscitar freqüentes desejos de recebê-lo e manifestar-lhe os nossos melhores sentimentos de gratidão.
Ao longo das próximas páginas, consideraremos o modo de viver melhor este último aspecto do grande Sacramento da nossa fé. Procuraremos assim contribuir com o nosso “grãozinho de areia” para que a vida cristã gire em torno da Sagrada Eucaristia já a partir destes primeiros anos do novo milênio.

  José Manuel Iglesias: Licenciado em Teologia e sacerdote, natural de Betanzos (La Coruña), onde compartilha seu trabalho pastoral com a dedicação ao ensino.

Fonte: Vida Eucarística, José Manuel Iglesias, Quadrante, 2005.
Tradução: Quadrante